Cereja
Glória Marreiros
Eu sou a cereja vermelha e madura
Que vai nos teus braços em cesto de vime.
E junto das outras, há algo que oprime
O néctar sentido, que em ti não perdura.
Tentei desviar-me e suster a doçura
Da carne que tenho e que julgas um crime.
Amor, tu não vez que meu âmbar redime
Orgias secretas da tua clausura.
Colheste-me em dia que o tempo não quis.
Deixas-te o pomar a gemer, infeliz,
Trindades da hora, que nunca me invoca.
Cereja num cesto é somente o que sou.
Mas tenho o orgulho e nunca te dou
Prazer de sentires meu suco na boca!
Glória Marreiros
Levedação
Glória Marreiros
Cantei os meus versos ainda menina,
No tempo em que o tempo passava sem horas
E a vida era quieta, não tinha demoras,
Porque eu não sabia o que era a rotina.
Os ventos agrestes trouxeram-me a sina
Que lia à lareira comendo as amoras
Do verão que passava, deixando as esporas
Cravadas na alma, por falsa doutrina.
A chuva caía deixando os regatos
Causar, nas encostas, os seus desacatos
Em rios pequenos, formosos, dispersos.
As mós do passado torturam sem dó
Memórias e sonhos desfeitos em pó,
Que amasso e levedam saudades e versos.
Glória Marreiros
Espelho
Glória Marreiros
A dança dos anos é feita em meu rosto,
Quando olho no espelho e vejo a idade
Despir os meus sonhos das réstias de jade,
Que outrora soltava o vinho do mosto.
Agora os reflexos emitem desgosto
E luas sem prata, que afeta e invade
Brinquedos deixados no cais da saudade,
Em bancos partidos isentos de encosto.
Aperto os meus seios. São castas sem vida.
A boca é licor derramado na lida
Que tive na terra que nunca encontrei.
Dorida dos anos, parti meu espelho
Com raiva de ver o meu rosto tão velho
Num baile de luas, descrente da lei.
Glória Marreiros
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